O que existe no centro da Via Láctea?
O que existe no centro da Via Láctea? Um buraco negro supermassivo, Sagitário A*, com cerca de 4 milhões de sóis. Veja como foi descoberto e fotografado.

No centro da Via Láctea existe um buraco negro supermassivo chamado Sagitário A*, com cerca de 4 milhões de vezes a massa do Sol. Ele fica a aproximadamente 27 mil anos-luz da Terra, escondido atrás de nuvens de poeira. Em volta dele, estrelas giram em alta velocidade.
Por décadas, os astrônomos só tinham pistas indiretas de que ele estava ali. Hoje ele já tem até foto. A seguir, você entende o que existe no centro da Via Láctea, como esse gigante foi descoberto e por que ele não ameaça a Terra.
Explicado de forma simples
A Via Láctea é a nossa galáxia, um disco gigante com centenas de bilhões de estrelas girando em torno de um ponto central. O Sistema Solar fica num dos braços desse disco, bem longe do meio.
Imagine um redemoinho de água numa pia. Tudo gira em volta do ralo. Na nossa galáxia, o “ralo” é um objeto com massa enorme concentrada num espaço muito pequeno.
Esse objeto é um buraco negro, uma região onde a gravidade é tão forte que nem a luz consegue escapar. Por isso ele não aparece diretamente. O que se vê é o efeito dele sobre o que está em volta.
O nome Sagitário A* vem da constelação de Sagitário, na direção em que ele fica no céu. O asterisco faz parte do nome e se lê “estrela”.
Como os cientistas descobriram o buraco negro
Se não dá para ver um buraco negro, como saber que ele existe? A resposta veio da observação das estrelas que giram perto dele.
Segundo a Fundação Nobel, dois grupos de pesquisa, liderados por Reinhard Genzel e Andrea Ghez, acompanharam por décadas as estrelas mais brilhantes perto do centro da galáxia. Eles usaram grandes telescópios e técnicas para enxergar através da poeira e da turbulência do ar.
Os dois grupos encontraram a mesma coisa: estrelas em órbitas muito rápidas em torno de algo invisível e extremamente pesado. A única explicação conhecida para tanta massa num espaço tão pequeno é um buraco negro supermassivo.
Pela descoberta, Genzel e Ghez dividiram metade do Prêmio Nobel de Física de 2020. A outra metade foi para Roger Penrose, por mostrar que a teoria da relatividade prevê a formação de buracos negros.
O que a ciência sabe: a primeira foto de Sagitário A*
Em maio de 2022, a colaboração Event Horizon Telescope (EHT) divulgou a primeira imagem de Sagitário A*. O EHT reuniu radiotelescópios em vários pontos do planeta, que trabalharam juntos como se fossem um único telescópio do tamanho da Terra.
A imagem mostra um anel brilhante em volta de uma região central escura. O brilho vem do gás quente que gira ao redor do buraco negro. A parte escura é a “sombra” do próprio buraco negro.
Segundo o EHT, a foto trouxe a primeira evidência visual direta de que o objeto no centro da galáxia é mesmo um buraco negro. Ela confirmou o que o movimento das estrelas já indicava.
Fotografar Sagitário A* foi mais difícil do que o esperado. O gás em volta dele se move muito rápido e muda de aparência em poucos minutos, o que exigiu técnicas avançadas para montar a imagem.
Causas e consequências: ele é perigoso para a Terra?
Não. A Terra está a cerca de 27 mil anos-luz do centro da galáxia, uma distância enorme. A gravidade do buraco negro não tem efeito perigoso sobre o Sistema Solar.
Na verdade, Sagitário A* é considerado relativamente calmo. Ele não engole muita matéria no momento, por isso brilha pouco em comparação com buracos negros ativos de outras galáxias.
O Sol e todo o Sistema Solar giram em volta do centro da galáxia, mas numa órbita estável e muito ampla. Esse movimento é lento na escala humana e não oferece risco.
Curiosidades e exemplos do dia a dia
Você pode “ver” a direção do centro da galáxia a olho nu:
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Longe das luzes da cidade, a Via Láctea aparece como uma faixa esbranquiçada cruzando o céu.
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A parte mais larga e brilhante dessa faixa fica na direção das constelações de Sagitário e Escorpião, onde está o centro da galáxia.
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No hemisfério sul, onde fica o Brasil, essa região aparece bem alta no céu em certas épocas do ano, ótima para observar.
Outra curiosidade: a imagem de Sagitário A* é parecida com a de outro buraco negro, o da galáxia M87, fotografado antes pelo mesmo projeto. Segundo o EHT, os dois são muito diferentes em tamanho, mas seguem as mesmas leis da relatividade de Einstein.
Por que foi tão difícil enxergar o centro da galáxia
Se o centro da Via Láctea está “logo ali” no céu, por que demorou tanto para descobrir o que existe nele? O problema é a poeira.
Entre a Terra e o centro da galáxia existem enormes nuvens de gás e poeira. Elas bloqueiam quase toda a luz visível que vem de lá. Olhar para essa região com um telescópio comum é como tentar ver o outro lado de uma sala cheia de fumaça.
A solução foi usar outros tipos de luz. Segundo a Fundação Nobel, os grupos de Genzel e Ghez observaram o centro galáctico em luz infravermelha, que atravessa melhor a poeira. Também foi preciso corrigir o tremor causado pela atmosfera da Terra, que borra as imagens.
Já a foto do EHT usou ondas de rádio, captadas por antenas espalhadas pelo mundo. Cada tipo de luz revela uma parte diferente da história.
Essas técnicas levaram décadas para amadurecer. Por isso, algo que parece óbvio hoje, um buraco negro gigante no meio da galáxia, só foi confirmado depois de muito trabalho e paciência.
Mitos e verdades
“O buraco negro do centro vai engolir a Terra.” Mito. A distância é gigantesca, e a órbita do Sistema Solar é estável.
“Buracos negros não podem ser fotografados.” Meia verdade. O buraco negro em si não emite luz, mas o gás brilhante ao redor dele pode ser registrado, como fez o EHT.
“A existência de Sagitário A rendeu um Prêmio Nobel.”* Verdade. A descoberta do objeto supermassivo no centro da galáxia foi reconhecida no Nobel de Física de 2020.
Perguntas frequentes
Todas as galáxias têm um buraco negro no centro? Acredita-se que a maioria das grandes galáxias tenha um buraco negro supermassivo no centro, como a Via Láctea e a M87.
Dá para ver Sagitário A com um telescópio caseiro?* Não. A poeira da galáxia bloqueia a luz visível dessa região, e o buraco negro em si não emite luz.
Quanto tempo a luz leva para chegar de lá até aqui? Cerca de 27 mil anos. A luz que chega hoje saiu de lá muito antes da invenção da escrita. O buraco negro do centro está crescendo? Ele pode ganhar massa ao engolir gás e poeira, mas hoje é considerado relativamente calmo e se alimenta pouco.
Resumindo
O que existe no centro da Via Láctea é Sagitário A*, um buraco negro supermassivo com cerca de 4 milhões de vezes a massa do Sol, a uns 27 mil anos-luz da Terra.
Ele foi revelado pelo movimento de estrelas próximas, trabalho que rendeu o Nobel de Física de 2020, e fotografado pela primeira vez em 2022.
Apesar da fama, ele não oferece perigo para nós.
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